A cidade de baixo pra cima.

Em 2016, um grupo de artistas de Presidente Prudente ocupou um galpão ferroviário abandonado por anos no centro da cidade. As condições do imóvel, então entregue a ratos e baratas, eram precárias. A questão de sua propriedade, por outro lado, que por todos os anos de abandono não parece ter incomodado ninguém, logo entrou em pauta: não se sabia a quem o galpão pertencia, caído em um limbo jurídico após a privatização da malha ferroviária para a ALL que, por sua vez, negava a responsabilidade pelo imóvel. Mais incomodados com os artistas do que com as baratas, o então governo municipal se movimentou para, mais de uma vez, lacrar o imóvel judicialmente. Entre indas e vindas, os artistas resistiram e permaneceram. O galpão, que na verdade pertence ao governo federal e está na lista de imóveis disponíveis para fins culturais dentro de uma burocracia que o grupo sozinho tem dificuldade em arcar, passou a ser disputado por diversos agentes entre eles a própria prefeitura de Presidente Prudente que tem um projeto de corredor cultural ligando o centro da cidade ao Centro Cultural Matarazzo, passando pelo galpão. Não se sabe bem qual a função do galpão em disputa neste novo corredor mas, ao que parece, a pretensão é retirar do imóvel um grupo que dá a ele função cultural para instalar nele, no imóvel, uma função cultural, não a que existe realmente, mas a que se pretende burocraticamente, uma contradição entre realidade e desejo estatal que expõe a complicada relação entre poder público e gestão da cidade não só em Presidente Prudente, mas na grande maioria das cidades brasileiras.

Existem dois vetores principais do planejamento urbano: um vem de cima para baixo, ou seja, parte do poder público e se impõe, pelo menos idealmente, sobre a população e outro de baixo para cima, ou seja, parte de demandas da população e se consolida através de ações do poder público. É claro que, na realidade, esses vetores estão sempre se cruzando (e às vezes se trombando) mas resumem essencialmente duas formas de se encarar a cidade, a sociedade e seus governos: de um lado, uma visão burocrática e tecnocrata, imposta a marretadas para o que estão embaixo. Do outro, uma visão comunitária e colaborativa, de construção lenta e cheia de percalços. O planejamento de cima para baixo é tentador: é mais fácil imaginar a cidade dos sonhos em uma mesa com seis pessoas do que em conjunto (especialmente se estas seis pessoas detém parte considerável do capital imobiliário da cidade).  Esta cidade sonhada, no entanto, às vezes se parece tão pouco com a cidade real que os projetos são feitos para os próprios sonhos, e não para a realidade. A construção colaborativa é mais difícil, trabalhosa e esbarra em alguns problemas. Em primeiro lugar, a vaidade daqueles que detém o poder político, ansiosos em deixar a sua marca, o seu legado, pensando a cidade, criação coletiva, como capricho individual. Em segundo lugar, a atual criminalização da política, entendida como a atividade das câmaras e prefeituras e não como a tarefa cotidiana de cada pessoa na resolução não violenta de conflitos. Pólis, a palavra grega para cidade é também o radical para política. A cidade coletiva, como a democracia, é cheia de conflitos e a política, a resolução não violenta de seus conflitos, precisa ser sua riqueza e não sua miséria.

Ouvir as cidades e seus movimentos, estimulando e consolidando suas iniciativas em vez de soterra-las sob planos alheios àqueles que nela vivem é uma tarefa árdua para prefeitos e urbanistas, acostumados ao poder das canetas que seguram, mas que precisa ser realizada.  É preciso, cada vez mais, compartilhar o poder decisório com a população, estimulando práticas de participação realmente públicas, para além das simulações democráticas que vez ou outra nos damos o trabalho de encenar. Prefeitos precisam rever sua relação com a cidade, urbanistas precisam rever sua relação com a cidade e, da mesma forma, os cidadãos precisam rever a sua relação com a cidade, como parte de um conjunto social maior a quem podem reclamar direitos e a quem devem satisfações, a verdadeira cidadania, a participação na cidade, lição grega que parece que temos que reaprender.

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