A lama de Brumadinho

Texto publicado no jornal O Imparcial em 03/02/2019

Ninguém discorda que buscar constantemente o maior lucro possível é uma necessidade para qualquer empresa capitalista. Ninguém discorda também que em uma sociedade de livre mercado este lucro é disputado por várias empresas que concorrem, em alguns casos, mundialmente. Para vencer sua concorrência, a empresa precisa ter preços baixos para ser competitiva. Se baixar demais seus preços verá seu lucro cair e a segunda regra ferirá a primeira. Entre essas forças de lucratividade, que puxam os preços para cima, e concorrência, que puxam os preços para baixo, há uma série de estratégias inconfessáveis para enganar as regras do jogo e uma delas é a externalização de custos. Vejamos, toda produção tem um custo e o preço do produto que vendo menos os custos de sua produção é igual ao meu lucro por sua venda. Mas, se em vez de buscar um lucro maior aumentando o preço, e se mantivermos o preço e baixarmos os custos?  A busca perpétua pelo menor custo tem lá seus interesses: pode estimular o desenvolvimento tecnológico, por exemplo, na busca por modos mais eficientes de produção. Mas veja, essa é uma busca perpétua, o que quer dizer que ela nunca é suficiente. Todas as estratégias tem que ser permanentemente usadas e o desenvolvimento tecnológico é uma, mas não a única. E se a empresa, de repente, parasse de pagar por algo que é custo de sua produção? Se energia elétrica é um custo de produção e eu consigo deixar de pagá-la por um incentivo do governo, há um bem de produção pelo qual eu não estou pagando. Meus preços se mantém, meu custo baixa, meu lucro aumenta. Repare que a energia elétrica não se tornou gratuita, ela está sendo paga por outro, o governo, que não eu. Isso é, esse custo foi externalizado.

No sertão da Bahia existe uma cidade chamada Caraíba, construída pela Caraíba Metais, uma mineradora então subsidiária da Cia Vale do Rio Doce, a mesma de Brumadinho. Era preciso construir a cidade pois a mina ficava muito longe e os trabalhadores precisavam de casas e infraestrutura. Enquanto a mineradora foi estatal, a cidade pertencia a empresa que arcava com todos os custos de sua manutenção. Nem uma lâmpada era trocada pelos funcionários/moradores. O hospital, também mantido pela Vale, era referência na região. Nos anos 90, em um bastante suspeito processo de privatização, a mineradora cedeu as casas aos funcionários, o hospital ao SUS e a escola a administrações públicas e privadas. Todos os custos não eram mais bancados pela empresa, mas pelos próprios funcionários, prefeitura ou governos.  Os custos foram externalizados. O lucro da mineradora disparou.

A atividade mineradora tem muitos impactos ambientais negativos e esses impactos são custos de produção. Minimizar e reparar esse impacto é caríssimo e a empresa privada, que busca lucro a qualquer custo, não quer, não pode e não vai arcar com ele. Se esses custos fossem internalizados, o minério seria caro demais para concorrer com outras mineradoras pelo mundo. Os lucros do desastre superam até mesmo as multas que nunca virão. Quando a barragem se rompe, um custo está sendo externalizado. Quem pagará por ele? Os habitantes de Mariana e Brumadinho, o meio ambiente, o governo federal e de Minas Gerais. Quem puder, pagará esse custo de produção da Vale com dinheiro, reconstruindo sua casa, refazendo sua vida. Quem não puder, pagará com sua vida, com sua saúde física e mental, com sua história, com sua cidade, com sua biodiversidade, com sua cultura, com sua água potável, com sua atividade pesqueira. A Vale simulará complacência, mas sabe que acontecerá novamente. E outra vez, e outra vez. O custos precisam ser baixos, o minério barato e a conta que o dinheiro não paga a natureza cobra a seu modo.

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