ABERTURA SEMANA DA ARQUITETURA UNOESTE 2019

O texto abaixo foi escrito para a abertura da Semana da Arquitetura da Universidade do Oeste Paulista em maio de 2019 com o tema ARQUITETURAS POSSÍVEIS: A DIMENSÃO POLÍTICA DA ARQUITETURA NO PANORAMA ATUAL BRASILEIRO.

nota: Antes de começar, gostaria de manifestar meu repúdio à perseguição instaurada contra a educação, a cultura, a arte e a ciência no Brasil, da qual o corte de verbas anunciado na semana passada é apenas o capítulo mais recente. Já a alguns anos, professores, cientistas e artistas, que nunca tiveram vida fácil no Brasil, tem sido perseguidos econômica, moral e ideologicamente postos como doutrinadores, esbanjadores de dinheiro público, baderneiros ou simplesmente inúteis, sendo submetidos a opiniões tacanhas, burras e sem propósito de gente que nunca passou por uma universidade ou, se passou, não entendeu nada. A universidade como lugar da ciência será sempre resistência contra o pensamento anticientífico, calcado em preconceito, misticismo, superstição, autoritarismo e preguiça intelectual de quem quer respostas simplórias diante de um mundo tão complexo e por isso tão encantador. A universidade como lugar da arte será sempre resistência contra a mesquinhez, a baixeza, a vileza, o racismo, o machismo, a homofobia e qualquer pensamento que segregue ao invés de acolher, que exclua ao invés de incorporar, que julgue ao invés de compreender, que abandone ao invés de cooperar. A universidade como lugar da política, será sempre resistência ao autoritarismo, às verdadeiras ditaduras e às falsas democracias, à limitação e cerceamento da postura crítica e da liberdade de pensamento, não daquela liberdade tacanha que tem sido reclamada para camuflar e perpetuar preconceitos e desinformação, mas sim a liberdade capaz de construir uma sociedade mais fraterna e abundante.

Atendendo ao corajoso convite do CACAU, estamos aqui para conversar sobre arquitetura e política, sobre a dimensão política da arquitetura ou também, seria correto dizer, a dimensão arquitetônica da política, porque a política é tanto continente quanto conteúdo da arquitetura. Quando digo política, digo também, mas não apenas, política partidária, a política daqueles que se chamam políticos como se algum homem ou mulher pudesse não ser político. Todos somos políticos porque política, na minha definição preferida, é a mediação não violenta de conflitos. Onde houver dois seres humanos, há conflito, e onde formos capazes de negociar, de resolver esses conflitos sem o uso da violência, haverá política. Há política dentro de uma família, há política em cada relação de amizade, há muita política em uma sala de aula, em uma universidade. Há política entre o arquiteto e seu cliente, há política entre o arquiteto e a sociedade. A arquitetura é um ato político porque é um ato para o outro, mas a arquitetura pode ser também antipolítica porque pode construir espaços de violência: a violência física dos muros altos demais, dos bancos pontudos para que um ser humano não possa dormir sobre eles. A violência simbólica da ostentação da riqueza, dos espaços de exclusão, dos edifícios sem entradas de pedestres que dizem “você não é bem-vindo” para quem chega de ônibus.

A dimensão política da arquitetura é a dimensão em que a arquitetura é capaz de propiciar, estimular e mediar o encontro, a harmonia, e até o conflito, entre duas pessoas, entre muitas pessoas, entre o indivíduo e a cidade, sua cultura, sua história, seus habitantes. O vão do MASP de Lina Bo Bardi é um espaço político. A marquise do Ibirapuera de Niemeyer, é um espaço político. O galpão da Vila Charlote, da professora Cristiana, é um espaço político. São espaços políticos porque são espaços democráticos e a democracia não é UM regime político. A democracia é o ÚNICO regime político, pois apenas na democracia há a solução não violenta de conflitos. Se há violência, não há política.

A democracia é o ÚNICO regime político, mas o que é uma democracia? Há países em que os cidadãos são extremamente participantes das decisões políticas cotidianas, fiscalizam, orientam e decidem diariamente os rumos tomados socialmente e que, no entanto, são chamados de “ditaduras” porque alguém determinou que seja assim. Há outros em que representantes eleitos são depostos ilegalmente, há países com presos políticos, que se consideram “democracias”. Na “maior democracia” do mundo, o presidente não é aquele que recebeu mais votos. Quem determina o que é democracia, o que não é?

A democracia não é um estado, a democracia é um processo, e o primeiro passo para ela é o reconhecimento do outro. Não há possibilidade de mediação não violenta de conflitos se não há reconhecimento de que há um outro. O segundo passo é o reconhecimento NO outro. Não há possibilidade de mediação não violenta de conflitos se não há reconhecimento de que o outro não é tão outro. O outro também é você, também é a sua cidade, também é a sua sociedade. Quando ele tem fome, é você que tem fome. Quando ele tem frio, é você que tem frio. Quando ele não puder dormir sobre o espinho do banco da praça, sob a agressão gradeada da marquise, é você também que, em algum lugar, não poderá dormir. Que isso não nos cause revolta imediata é uma régua de quanto estamos longe da democracia.

Na minha primeira aula como aluno do curso de arquitetura o professor perguntou a cada um o porquê de quererem ser arquitetos. Respondi que queria ser arquiteto porque os armários da cozinha da casa da minha mãe eram fundos demais e eu queria ser arquiteto para poder mudar isso. Ele sorriu e respondeu que o arquiteto é sempre um inconformado. Não tenho nenhum apreço por arquitetura que não é inconformada, que não quer transformar o mundo. O arquiteto que não deseja transformar o mundo, ou porque se satisfaz com esse ou porque tem medo de imaginar mundos melhores, não me interesso por ele. O arquiteto que se apaixona por sua obra como se a arquitetura sem ninguém dentro fosse arquitetura, não me interesso por ele.

O arquiteto é um profissional que historicamente ligado às classes dominantes. No Brasil, a arquitetura sempre foi coisa da elite: os profissionais eram filhos da elite e os clientes eram os amigos do pai. Enquanto isso, a cidade se fazia sem arquitetos, com a sabedoria empírica dos pedreiros. Na minha turma de faculdade, todos eram filhos da classe média. O único negro era o intercambista moçambicano. Ninguém da periferia. Ninguém que pudesse levantar a mão e interromper o professor de história: professor, o Brasil não é isso. Onde está o Brasil, professor? Onde está a periferia, professor? Onde está o povo? Onde está a África, professor? Hoje eu, que agora sou professor, falo da Piazza della Signoria de Florença pensando: onde está o Brasil, professor? Que não pareça que eu não sei da importância e da beleza da Piazza della Signoria com o seu David de Michellangelo na porta do palácio mas e o Império do Mali que enquanto Michellangelo martelava seu gigante na Itália era o maior Império do mundo? Os malês faziam cidades? Os malês faziam palácios? Os malês faziam esculturas de 5 metros de altura? Eu não sei, eu queria saber. Eu não quero esquecer o que é positivismo, mas eu quero saber o que é ubuntu. Porque eu não tive colegas negros, eu não tive professores negros, mas eu tenho alunos negros e eu tenho um compromisso com eles. Eu tenho um compromisso com as alunas, porque a mulher sempre foi esquecida. Quem é Charlotte Perriand? Quem é Liliana Guedes? Quem é Ana Maria Karazawa? O modo como pensamos arquitetura e as cidades é masculino e branco, e é por isso que não está dando certo. Quando lembro que os principais problemas das nossas cidades são os muros altos demais, os automóveis grandes demais e a desigualdade ostensiva demais, não posso deixar de pensar que nossas cidades tem, freudianamente, um grande problema com o falo.

Para uma arquitetura política é preciso reabilitar a política. A antipolítica está na moda e o senso comum declara que não precisamos de políticos mas de gestores, que a cidade tem que ser administrada como uma empresa, concorrer com outras cidades, atrair capitais, ser lucrativa. A pólis, a cidade política, dá lugar à city, a cidade empresa, não a cidade do trabalho, a cidade onde acontecem as atividades produtivas: A PRÓPRIA cidade é a empresa que se submete incondicionalmente ao poder do capital, ao valor monetário. A cidade rica de valores, políticos, culturais, ecológicos, sociais, históricos, a cidade plural e diversa é esmagada sob o peso do valor econômico, o único que interessa ao capitalista.

Meus alunos conhecem a história. Certo dia, em uma entrevista para a televisão, no tempo em que a televisão ainda me chamava para entrevistas, em uma esquina da rua Bela, a repórter perguntou: professor, por que estão destruindo as casas de madeira dos pioneiros para fazer estacionamento? Convido a todos para responderem a esta pergunta. Por que destruíram  o hotel municipal para fazer loja de sapato? Por que as favelas de São Paulo localizadas em locais de interesse do mercado imobiliário pegam fogo? Se o centro de São Paulo é repleto de edifícios abandonados, por que as pessoas dessas favelas incendiadas são removidas para a periferia, a duas ou três horas de seus empregos? Por que o shopping Iguatemi de Florianópolis invadiu uma área pública E de proteção ambiental, e no entanto está lá? Por que se amplia o perímetro urbano da cidade e se coloca gente no João Domingos, se a gleba do jardim Maracanã continua vazia? Por que os ricos tem direito à arquitetura e os pobres não? Respondi à repórter: estão derrubando as casas dos pioneiros para fazer estacionamento porque estacionamento dá dinheiro, casa velha não. Mas e o patrimônio, a nossa história, a nossa memória? Na cidade entregue ao capital não há outro deus que não o dinheiro e isso é um enorme problema por muitos motivos. Vou encerrar essa fala esboçando três.

Primeiro: Existe um princípio econômico, ligado à lei de oferta e demanda, chamado Princípio da Escassez. É o princípio da escassez que faz com que se a safra de tomates é muito grande, o produtor tem prejuízo. O capitalismo é o único sistema econômico que tem uma coisa chamada Crise de Superprodução. Se produzimos tomates o suficiente para todos, até sobrando, isso é ruim por que o preço cai. O produtor então joga o tomate na beira da estrada, diminui a oferta, o preço sobe. Darei um exemplo mais dolorido: se formamos muitos arquitetos, isso é muito bom para que a arquitetura chegue a todos. Se formamos muitos médicos, isso é bom porque mais pessoas terão atendimento adequado. Curiosamente, as associações de medicina são CONTRA o aumento do número de profissionais pois a concorrência derrubaria os preços das consultas, muitos médicos deixariam a profissão e retornaríamos a falta de médicos, a falta de tomates, e a falta de arquitetos. Todos nós vivemos essa contradição na pele: o aumento de profissionais foi um dos motivos que derrubou o valor do trabalho do arquiteto, mas o que vamos fazer? Vamos permanecer formando meia dúzia de filhos da elite cheios de projetos para os amigos do papai? Ou vamos popularizar o conhecimento que nos foi dado, ainda que isso prejudique o seu próprio mercado de trabalho? Não se sintam culpados. Não culpem os médicos, os arquitetos ou os tomates. Errado é o sistema. Assim, o mercado NUNCA será capaz de atender a demanda nenhuma da sociedade e, por tanto, tudo aquilo que a nossa civilização considerar um DIREITO não pode ser tratado como mercadoria. A cidade não pode ser mercadoria, a habitação não pode ser mercadoria, a arquitetura não pode ser mercadoria. Enquanto for, será para poucos.

Segundo: O capital sem a política é um predador tão eficiente que acaba por morrer de fome. Quando acabar de devorar a política, o bem público, o meio ambiente, a saúde física e mental de cada trabalhador, do que o capital irá se alimentar? De si mesmo? O capitalismo pressupõe uma economia de crescimento infinito em um planeta finito. Vocês podem fazer a experiência em casa: peguem uma bexiga e assoprem ela pra sempre. Se ela crescer infinitamente e nunca estourar, é porque vai dar certo. Sem forças antagônicas que regulem seu poder, o próprio capital implode. Mas o capital quer o lucro agora, maravilhoso e potente como um fórmula um acelerando em direção a um abismo.

Terceiro: A pólis e a city, a contradição entre política e capital não tem outro nome: luta de classes. O corpo presente na cidade e o capital aplicado em qualquer cidade do mundo. De um lado estão os interesses dos moradores que desejam uma cidade aberta, fluída, dinâmica, acessível, saudável, sustentável econômica, cultural, ambiental e socialmente, em contradição ao capital que quer uma cidade apenas e cada vez mais lucrativa para si mesmo, a qualquer preço. A cidade é a nova fábrica e o direito à cidade, à habitação, à arquitetura, é a luta diária de quem quer fazer não apenas uma arquitetura política, mas uma vida política. A democracia não é um regime fácil, é o regime instável por natureza, mas conflitos se resolvem, contradições não, e enquanto houverem classes sociais diferentes, enquanto houverem proprietários e proletários, as contradições estarão presentes. Por enquanto, a democracia real, a democracia cotidiana que deve atingir a todos para que seja do proveito de todos, a democracia em que todos tenham a mesma voz, os mesmos deveres e os mesmos direitos, de cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo sua necessidade é só um sonho pelo qual vale a pena lutar.

Muito obrigado.

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